Setor de aviação contribui com 2% das emissões totais de gases; meta é de reduzir pela metade as emissões em 2050
São Paulo - Representantes da Fapesp, Boeing e Embraer iniciaram
nesta quarta-feira (25/04) um estudo sobre os principais desafios
científicos, tecnológicos, sociais e econômicos para o desenvolvimento e
adoção de biocombustível pelo setor de aviação comercial e executiva no
Brasil.
Com duração prevista entre nove a doze meses, o estudo será
orientado por uma série de oito workhops que serão realizados ao longo
de 2012 para coleta de dados com pesquisadores, integrantes da cadeia de
produção de biocombustíveis, além de representantes do setor de aviação
e do governo. O primeiro workshop foi aberto nesta quarta-feira, na
sede da Fapesp, e termina nesta quinta-feira (26/04), no Espaço Ágape,
em São Paulo.
Após a conclusão do estudo, a Fapesp, Boeing e Embraer realizarão um
projeto de pesquisa conjunto sobre os temas prioritários apontados no
levantamento, e lançarão uma chamada de propostas para o estabelecimento
de um centro de pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis para
aviação comercial envolvendo as três instituições, baseado no modelo dos
Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da Fapesp, voltados
para desenvolver pesquisas na fronteira do conhecimento.
O projeto de pesquisa faz parte de um acordo entre as
instituições, assinado em outubro de 2011, e integra o Programa Fapesp
de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), que reúne mais de 300 cientistas
brasileiros, sendo a maioria atuantes em universidades e instituições de
pesquisa no Estado de São Paulo, além de 60 pesquisadores de diversos
outros países.
O programa possui cinco linhas de pesquisa: "Biomassa para
bioenergia" (com foco em cana-de-açúcar), "Processo de fabricação de
biocombustíveis", "Biorrefinarias e alcoolquímica", "Aplicações do
etanol para motores automotivos: motores de combustão interna e células a
combustível" e "Pesquisa sobre sustentabilidade e impactos
socioeconômicos, ambientais e de uso da terra".
“Essa oportunidade que nos foi trazida pela Boeing e a Embraer
se inseriu muito bem nas linhas de pesquisa do Programa BIOEN e na
agenda da Fapesp, de desenvolver pesquisa cooperativa, estimulando e
criando condições para as universidades e instituições de pesquisa
trabalharem em colaboração com empresas, que trazem desafios científicos
importantes e complexos para o conjunto de pesquisadores que temos no
estado de São Paulo”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor
científico da Fapesp, na abertura do primeiro workshop.
O setor de aviação, que contribui com 2% das emissões totais
de gases de efeito estufa no planeta, está enfrentando o desafio de
reduzir pela metade a emissão de CO2 em 2050, em comparação com 2005, e
se tornar neutro carbono até 2020, conforme estabeleceu a Associação de
Transporte Aéreo Internacional (Iata, na sigla em inglês).
Para atingir essas metas de controle de emissões, em meio a um
cenário de forte expansão do transporte aéreo em todo o mundo, uma das
alternativas que estão sendo avaliadas pelo setor é a utilização de
biocombustíveis que possam ser misturados ao querosene na proporção de
até 50% sem a necessidade de realizar modificações nas turbinas da atual
frota de aeronaves e no sistema de distribuição do combustível
aeronáutico. Entretanto, ainda não se chegou ao desenvolvimento de um
biocombustível que seja produzido em escala comercial e a um custo
competitivo.
“Nós ainda não temos uma perspectiva de em quanto tempo
teremos biocombustíveis produzidos em escala comercial e que possam ser
utilizados na aviação de forma global, e não prevemos que no futuro
próximo haverá a substituição completa do combustível fóssil utilizado
na aviação por biocombustíveis”, disse Mauro Kern, vice-presidente
executivo de engenharia e tecnologia da Embraer.
“O esforço que está sendo feito no Brasil, capitaneado pela
Fapesp, que está organizando as empresas, instituições de pesquisa e
entidades governamentais e não governamentais, tem o potencial de trazer
uma contribuição muito significativa para os projetos que estão sendo
realizados no mundo todo para se chegar ao desenvolvimento de um
biocombustível para aviação”, avaliou Kern.
De acordo com especialista no setor presentes no evento,
apesar de já existirem biocombustíveis produzidos no exterior a partir
de diferentes biomassas, que inclusive já obtiveram certificação para
serem utilizados na aviação e vêm sendo usados em voos de teste e até
mesmo comerciais, eles ainda não são produzidos em grande escala e
chegam a ser até 100% mais caros do que o querosene de aviação.
Utilizando a experiência brasileira na produção do etanol, que
não é um combustível ideal para a aviação, as instituições envolvidas
no projeto pretendem dar um salto tecnológico que possibilite o
desenvolvimento de um biocombustível viável comercialmente, obtido a
partir do estudo de diferentes matérias-primas, que não só a
cana-de-açúcar, e de diversas rotas tecnológicas.
“A grande vantagem de estar realizando esse tipo de pesquisa
no Brasil é que o país tem experiência na utilização da cana-de-açúcar,
usando uma fonte renovável de combustível. Podemos aprender e utilizar
essa experiência para aplicar na área de aviação”, afirmou Donna Hrinak,
presidente da Boeing Brasil.
Fonte: Agência FAPESP / Info Online